quarta-feira, 29 de agosto de 2012
NENHUM A MENOS
Título Original: Not One Less
Título Traduzido: Nenhum a Menos
Gênero: Drama
Duração: 106 minutos
Ano: 1999
Direção: Zhang Yimou
Elenco: Wei Minzhi
Zhang Huike
Mayor Tian
Teacher Gao
Título Traduzido: Nenhum a Menos
Gênero: Drama
Duração: 106 minutos
Ano: 1999
Direção: Zhang Yimou
Elenco: Wei Minzhi
Zhang Huike
Mayor Tian
Teacher Gao
Vários ditados populares poderiam ser citados para definir as atitudes da professora Wei Minzhi, que substitui o professor Gao, quando este necessita se ausentar da escola por um mês. Mas, “Não sabendo que era impossível foi lá e fez!”, atribuída ao cineasta francês Jean Cocteau, sem dúvida, demonstra a grande capacidade de contornar as dificuldades que a adolescente de 13 anos demonstrou.
No filme Nenhum a Menos, os atores são amadores e utilizam seus próprios nomes para representar o cotidiano dos problemas de uma escola rural na China. O distrito é muito pobre e esquecido pelo governo federal, sem as mínimas condições de sobrevivência digna para o ser humano. O professor Gao se esforça para não deixar que nenhum dos alunos abandone a escola, pois o costume local é que as crianças se dirijam para a cidade para trabalhar e ajudar no sustento da casa. Mas a mãe do professor Gao mora longe e fica doente, quase à morte, e ele precisa se ausentar da atividade para visitá-la. Uma menina, de treze anos, Wei Minzhi, é trazida pelo prefeito do distrito rural, onde a escola se situa, e apresentada ao professor Gao como sua substituta. O professor é abnegado ao ensino, apesar de estar velho, mas aceita as decisões do prefeito sem contestar. Wei Minzhi questiona o professor quanto ao pagamento prometido em troca do trabalho prestado e ele responde que este assunto é com o prefeito. O professor faz um teste bastante elementar para verificar o que a menina pode fazer durante sua ausência. Pergunta se ela sabe cantar e dançar alguma música e, ela canta uma música que fala de Mao Tsé Tung, ele, então, questiona se ela não sabe mais alguma e ao cantar ela não acerta a letra, no que é corrigida. O professor percebe a deficiência da formação escolar e orienta a, agora, professora a copiar no quadro as lições deixadas por ele. Outra orientação é que não libere os alunos antes de o sol bater em determinado ponto da sala de aula, com exceção se houver chuva. Para executar a cópia das lições no quadro o professor deixa apenas o número exato de gizes para os dias em que ele ficará fora. A escola não recebe investimentos do governo e os móveis estão em péssimas condições. Os únicos métodos didáticos, usadas pelo professor, para dar suas aulas são o quadro-negro bastante desgastado e o giz comprado por ele mesmo. Alguns alunos moram muito longe e pernoitam na escola dormindo vários, na mesma cama, e no mesmo quarto que o professor. Os detalhes das deficiências da escola não são narrados, mas apresentados imageticamente nos dando a dimensão exata das precariedades por que a escola passa.
Quando, finalmente, o professor se afasta, no veículo do prefeito, a menina percebe que não ficou resolvido, para ela, o assunto do pagamento do trabalho executado. Ela corre atrás do veículo gritando e quando o carro pára, ela insiste no salário com o professor. O modo como ela repete a mesma frase com a mesma entonação demonstrando sua obstinação com o assunto. O professor Gao promete, então, que se o prefeito não pagá-la ele mesmo o fará e ainda lhe dará um pouco mais se ela não permitir que nenhum aluno se afaste da escola. Este procedimento, de insistência, ela vai repetir em várias passagens do filme.
Quando não sabe calcular o dinheiro que necessita para ir à cidade, ela questiona várias vezes os alunos, sempre no mesmo tom, para que algum deles vá ao quadro calcular. Ao descobrir quanto de dinheiro precisam ela insiste com os alunos como conseguir o dinheiro. Um menino sugere carregarem tijolos na olaria e novamente, eles mesmos, iniciam os cálculos de quantos tijolos e quantos dias de trabalho serão necessários para chegar ao valor estimado anteriormente. Ao terminarem o trabalho na olaria, mesmo a revelia do proprietário, que não se encontrava no local, quando eles chegaram, há dificuldade em receber o dinheiro sob a alegação de que eles fizeram o trabalho porque quiseram. Wei Minzhi novamente coloca em prática o que sabe: insistir, com a mesma fala e o mesmo tom, até realizar o seu intento. Esta maneira de agir, mesmo intuitiva, é que vai aproximar Wei Minzhi dos seus alunos e impor um respeito que a principio não lhe era devido. A aproximação se dá pela necessidade da criação de uma estratégia para a resolução de um problema que une os alunos e a professora, que é trazer de volta para a sala de aula um aluno que se evadiu para a cidade. É uma resistência criada em torno de uma dificuldade que vai proporcionar a interação da professora com os alunos. A seqüência das cenas vai impelindo o espectador a perceber a interação que aos poucos vai acontecendo entre alunos e professora, que a princípio, não se sucedeu. A professora não sabia como se comportar perante a turma, pois não havia sido preparada para comandar e impor disciplina e não conseguia que os alunos obedecessem.
Na cena em que Wei Minzhi está frente ao grupo de alunos, no pátio da escola, coordenando uma cantoria e uma tímida dança, aparece, logo atrás, uma vaca próximo à porta da escola e, nos permite comparar a uma situação de rebanho, os alunos, sendo conduzidos pela professora Wei Minzhi que, com sua precária formação, usa sua intuição, tal qual um pastor, para conseguir a obediência das crianças, com idades bem próximas à dela.
Quando a professora vai para a cidade que, ao contrário do campo, é agitada e superpovoada e está longe de ter a calma do povoado onde Wei Minzhi vive, ela se depara com uma situação totalmente nova. A cidade proporciona dificuldades de sobrevivencia e, Wei Minzhi já convivia, com sua família, com grandes dificuldades financeiras, talvez por isso mesmo tenha sabido contornar as contradições que se apresentaram nesta sua tarefa. O diretor explorou esta faceta dos obstáculos da vida rural chinesa e, no desenrolar da ação, deu à personagem a capacidade de descobrir-se capaz de resolver os problemas que foram se apresentando. Pode-se notar que esta descoberta da personagem vai surgindo a medida que ela vai interagindo com as crianças e vai havendo troca entre eles, de conhecimento dos seus modos de ser, da cultura, dos hábitos que os próprios familiares dos alunos tinham, como trabalhar na olaria carregando tijolos, por exemplo, que Wei Minzhi não tinha conhecimento. Esta troca cultural, entre as crianças e a professora, vem de encontro com teoria de Lev Semenovitch Vygotsky, pensador bielo-russo(1896-1934), importante em sua área, e pioneiro na noção de que o desenvolvimento intelectual das crianças ocorre em função das interações sociais e condições de vida. Um dos pressupostos básicos de Vygotsky é que o ser humano constitui-se enquanto tal, na sua relação com o outro e, no ensino e na aprendizagem, aquele que aprende e aquele que ensina são partícipes de um mesmo processo, ambos aprendem e ambos ensinam.
Durante todo o desenrolar do filme ficarão bem claros, para o espectador atento, as diversas situações semelhantes, por que vai passar Wei Minzhi, nas quais haverá esta troca de aprendizagens culturais. Quando ela consegue falar com o diretor da emissora de TV, depois de passar dia e noite vagando na portaria sem conseguir entrar, ficou um aprendizado para o diretor de que algo estava errado na maneira de atender de sua recepcionista ao não ter dado a devida atenção à insistência da menina e Wei Minzhi aprendeu que valeu a pena a sua insistência, aliás, como já se tinha percebido sua insistência quanto ao recebimento de seu salário.
Quanto à composição utilizada pelo diretor pode-se notar que ele prioriza a colocação da personagem da professora Wei Minzhi na seção áurea do espaço da cena, conforme podemos ver nas figs 1 , 2, 3, e 4, mesmo que algumas vezes, por serem amadores, os atores não tenham rigor em cumprir as marcações feitas para os seus posicionamentos. Os espectadores mais atentos até podem perceber alguma hesitação na atuação das crianças, quase todas utilizando seus próprios nomes no filme.
O fato de serem usados atores amadores, utilizando seus prórpios nomes dá ao filme um caráter documental, mas com o desenrolar da aventura de Wei Minzhi, na cidade, à procura do aluno que se evadiu da escola, o espectador passa a se deter no desenrolar desta busca e, apenas no final, quando o diretor Zhang Yimou apresenta um texto que atesta sua preocupação com o social é que se volta a perceber que aquele podia ser sido documentário sobre uma província chinesa.
Vale a pena dedicar seu tempo para conferir esta denuncia sobre essa situação da educação, que não fica muito longe da educação no Brasil.
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