Título:
A Opinião PúblicaAno:
1967Diretor:
Arnaldo JaborDuração :
115 minutos
Tema:
Retrato da classe média carioca em 1967:sua visão política e social
No inicio do filme o narrador afirma não
haver atores, que tudo é real e que as opiniões são de homens comuns de classe
média classificados pelos que possuem poder como homens de “opinião pública”.
A
musica inicial é do folclore popular sem autor conhecido, portanto de domínio
público e acompanha a imagem de uma rua asfaltada, uma praça, ruas e prédios públicos
e privados da cidade do Rio de Janeiro, espaços públicos frequentados por essa
classe que vai opinar no filme. De acordo com a letra da música “Se essa rua
fosse minha” se eu, a pessoa comum, possuísse aquela rua, mandaria cobri-la de
pedras de brilhantes para o meu amor passar. Mas eu não tenho essa rua nem esse
poder e, quem sabe, na época das filmagens, época da ditadura militar, nem
transitar livremente a qualquer hora por aqueles espaços. Portanto apesar de o
homem comum, de classe média, ter sido considerado um homem de opinião pública,
a música afirma que ele não tem poder nem para fazer este agrado ao seu amor.
A
imagem dos prédios é feita de baixo para cima, quando está mostrando a parte
pública, a rua e, de cima para baixo quando está mostrando sua parte traseira e
interna dos ambientes. Podemos pensar que o homem comum só pode olhar de cima
para baixo quando está em seu ambiente íntimo e quando está no ambiente público
tem de olhar de baixo, posição inferior, para cima, onde está o poder das
grandes cidades, confirmando que ele próprio não possui poder.
Mais
uma vez o narrador entra afirmando que tudo que veremos no filme serão
situações típicas do cotidiano das pessoas, tanto vozes e gestos, portanto, não
são estudados, são os hábitos das pessoas entrevistadas. Afirma, ainda, que
essas situações refletidas numa tela, mesmo sendo comuns e eternas, podem revelar-se
estranhas e imperfeitas.
Na
próxima cena, em que cinco adolescentes são questionados sobre o futuro, quatro
deles são de cor branca e um é negro. Apesar de a pergunta ter sido feita para
o grupo dos cinco, apenas o negro é que manifesta algo sobre o seu futuro
porque os quatro adolescentes de cor branca em vez de responderem, voltam-se
para o negro repassando a pergunta. Dão-nos a impressão de que se acham
superiores ao negro e agem quase com zombaria em relação a ele. Portanto, a
resposta dos quatro brancos em relação ao futuro parece estar no corpo, cuja
atitude, afirmou uma suposta superioridade racial. A zombaria vai até o ponto
em que o negro fala com firmeza para um dos rapazes que não deve satisfações a
ele porque ele, o branco, não é a “nega” dele. Apesar de amigos, os cinco, há
um preconceito velado no grupo.
O
uso da narrativa afirmativa é bastante presente no filme e as imagens vão, ora
confirmando, ora negando estas afirmativas do narrador. Durante todo o filme as
respostas dos entrevistados demonstram muita incerteza em relação a sua vida
presente e futura. Na sua fala eles retratam o momento de incertezas políticas
que o país vive, alguns, até demonstrando certa despreocupação com o futuro,
outros grande indignação.
A
situação, das entrevistas, que mais me chamou a atenção foi na casa do militar
que, enquanto estava discorrendo sobre a disciplina da sua vida, o neto parece
que contrariava toda aquela história de autoridade e obediência militar,
fazendo uma demonstração do seu físico e de sua espontaneidade e, como se
quisesse dizer que a geração do seu avô era rígida e já estava no passado. Tudo
isso perante uma câmera que, devido às inovações tecnológicas, proporcionava ao
homem comum ser filmado e mostrado, em som e imagem como ele imaginava que era
ou como ele queria ser era objeto de curiosidade por parte dessa nova geração. Jovens
em busca da felicidade para ter poder, conforme afirma, mais uma vez, o
narrador. Jovens que afirmam não saber qual o destino do país, mas falam como
devem proceder para vencer na vida e ter poder, no mesmo tom de discurso de um
político e gesticulam reproduzindo atitudes dos políticos de palanque.
Apesar
de todas as negações que as imagens possam fazer em relação ao texto que o
narrador vai apresentando percebe-se a despreocupação das pessoas em falar de
si e do momento em que viviam, mesmo estando sob um regime rígido e
controlador. O hábito de frequentar lugares de diversão não é abandonado apesar
da situação. Parece que as ações militares eram sutis porque, eventualmente, no
meio do público aparece a imagem de um militar, discreto, mas presente. Como se
estivesse ali apenas para lembrar que havia um controle da situação.
Noutro
trecho da narração escutamos que o jovem, que já havia se manifestado contrário
aos hábitos dos adultos que tinham poder, vai se tornar, no futuro, também, um
homem de classe média e de opinião publica. Um que é entrevistado na fila do
alistamento militar, faz pose de homem poderoso ao ter o microfone na mão para
dar sua opinião sobre o evento. A afirmação do narrador, nesta hora, é
confirmada pela pose e pela fala do entrevistado que diz ser o serviço militar
uma grande etapa na vida do homem, pois depois de cumprido o período no
exercito ele terá subido mais um andar na sua carreira.
Outra
situação que não pode deixar de ser citada é a descrição que uma mulher faz de
sua vida de casada. A princípio ela declara que o destino é que decide que a
mulher tem que ser de um homem só, mas logo em seguida emenda outra declaração
contrária: minha vida é chata demais, lavar, passar, cuidar dos filhos,
cozinhar para marido, levantar de madrugada quando ele chega das farras, botar
comida pra ele, quer dizer que isso não é vida. Perguntada sobre qual a missão
da mulher na sociedade ela responde que não sabe. A mulher, que já estava
casada e tinha vários filhos, estava tomando consciência de que um novo tempo
estava chegando e já estava em dúvida se o destino da mulher era, mesmo, casar
e cuidar da casa. Era o auge da revolução feminina, a liberdade sexual, e ela
já não podia usufruir devido às amarras a que se sujeitara. Quando ela casou
não tinha opção e agora, com filhos crescendo, o marido indo para as farras e
ela cuidando da casa e com vontade de viajar, pode-se ler criar asas, dar um
pouco de fantasia para a sua vida.
O
filme todo é em tom afirmativo e mostra o momento vivido pelo povo que estava
deslumbrado pelas novas tecnologias como, por exemplo, a câmera portátil que
gravava som e imagens simultâneos e possibilitava ao povo se como se estivesse
na frente do espelho. Com todas as novidades que a sociedade era bombardeada
nas propagandas, não sobrava muita disposição para contestar o momento
político.
Esses desencontros entre a fala do narrador, a
fala dos entrevistados e as imagens que os mesmos nos brindaram são fruto da
incerteza e confusão que se instalou na sociedade após o golpe militar. A
confusão e a desinformação foram os elementos que paralisaram a sociedade
perante os fatos políticos. As aparições dos entrevistados nos permitem
perceber uma realidade subjetiva, que não é verbalizada.
Pelo
exposto podemos pensar no filme como um documentário que se tornou um retrato
da sociedade de uma época do qual somos fruto. Hoje já se pode classificar este
filme, que para Arnaldo Jabor, foi arte, naquela época, como um documento
histórico que atesta o que foi vivido por uma sociedade que estava, ainda, sob
o impacto de um golpe militar.
Segundo Jacques Le Goff (1990):
“um documento
é antes de tudo o resultado de uma montagem, consciente ou inconsciente, da
historia, da época, da sociedade que o produziram, mas também das épocas
sucessivas durante as quais continuou a viver, talvez esquecido, durante as
quais continuou a ser manipulado, ainda que pelo silêncio. O documento é uma
coisa que fica, que dura, e o testemunho, o ensinamento (para evocar a
etimologia) que ele traz devem ser em primeiro lugar analisados desmistificando-lhe
o seu significado aparente”.
O
filme pode e deve ser assistido e analisado como um documento que, como já foi
citado, nos aponta muitos fatos vividos pela sociedade de sua época. Por detrás
da aparente confusão de algumas falas dos entrevistados e por detrás da fala do
narrador podemos ainda encontrar outra linguagem que nos conta parte do que não
foi verbalizado. Podemos encontrar a linguagem visual, corporal dos
entrevistados, que ora confirma a verbal e ora contradiz.
Julio
Lourenço, autor do blog Tempos Modernos, desqualifica a capacidade técnica do
filme, mas, até neste quesito, acho que há uma consonância com a situação
vivida pelos personagens, que aparecem em grupos, em rituais ou em festas. Há
nessas cenas, algo que parece uma confusão ou discórdia, às vezes visual, às
vezes sonora, que está de acordo com as várias falas dos personagens que estão
com muitas dúvidas.
Considero
o filme mais um, dos vários, documentos históricos que nos levam para uma época
de grandes mudanças na sociedade e, como toda obra, depois de entregue ao
público, está aberta a grande variedade de interpretações. Não pode ser
diferente com A Opinião Publica.
Referencias
Bibliográficas
·
Le Goff,
Jacques, 1924; História e memória / Jacques Le Goff; tradução Bernardo Leitão;
Campinas, SP Editora da UNICAMP, 1990.