sexta-feira, 31 de agosto de 2012

A Opinião Pública

Título: A Opinião PúblicaAno: 1967Diretor: Arnaldo JaborDuração : 115 minutos
Tema: Retrato da classe média carioca em 1967:sua visão política e social



No inicio do filme o narrador afirma não haver atores, que tudo é real e que as opiniões são de homens comuns de classe média classificados pelos que possuem poder como homens de “opinião pública”.
A musica inicial é do folclore popular sem autor conhecido, portanto de domínio público e acompanha a imagem de uma rua asfaltada, uma praça, ruas e prédios públicos e privados da cidade do Rio de Janeiro, espaços públicos frequentados por essa classe que vai opinar no filme. De acordo com a letra da música “Se essa rua fosse minha” se eu, a pessoa comum, possuísse aquela rua, mandaria cobri-la de pedras de brilhantes para o meu amor passar. Mas eu não tenho essa rua nem esse poder e, quem sabe, na época das filmagens, época da ditadura militar, nem transitar livremente a qualquer hora por aqueles espaços. Portanto apesar de o homem comum, de classe média, ter sido considerado um homem de opinião pública, a música afirma que ele não tem poder nem para fazer este agrado ao seu amor.
A imagem dos prédios é feita de baixo para cima, quando está mostrando a parte pública, a rua e, de cima para baixo quando está mostrando sua parte traseira e interna dos ambientes. Podemos pensar que o homem comum só pode olhar de cima para baixo quando está em seu ambiente íntimo e quando está no ambiente público tem de olhar de baixo, posição inferior, para cima, onde está o poder das grandes cidades, confirmando que ele próprio não possui poder.
Mais uma vez o narrador entra afirmando que tudo que veremos no filme serão situações típicas do cotidiano das pessoas, tanto vozes e gestos, portanto, não são estudados, são os hábitos das pessoas entrevistadas. Afirma, ainda, que essas situações refletidas numa tela, mesmo sendo comuns e eternas, podem revelar-se estranhas e imperfeitas.
Na próxima cena, em que cinco adolescentes são questionados sobre o futuro, quatro deles são de cor branca e um é negro. Apesar de a pergunta ter sido feita para o grupo dos cinco, apenas o negro é que manifesta algo sobre o seu futuro porque os quatro adolescentes de cor branca em vez de responderem, voltam-se para o negro repassando a pergunta. Dão-nos a impressão de que se acham superiores ao negro e agem quase com zombaria em relação a ele. Portanto, a resposta dos quatro brancos em relação ao futuro parece estar no corpo, cuja atitude, afirmou uma suposta superioridade racial. A zombaria vai até o ponto em que o negro fala com firmeza para um dos rapazes que não deve satisfações a ele porque ele, o branco, não é a “nega” dele. Apesar de amigos, os cinco, há um preconceito velado no grupo.
O uso da narrativa afirmativa é bastante presente no filme e as imagens vão, ora confirmando, ora negando estas afirmativas do narrador. Durante todo o filme as respostas dos entrevistados demonstram muita incerteza em relação a sua vida presente e futura. Na sua fala eles retratam o momento de incertezas políticas que o país vive, alguns, até demonstrando certa despreocupação com o futuro, outros grande indignação.
A situação, das entrevistas, que mais me chamou a atenção foi na casa do militar que, enquanto estava discorrendo sobre a disciplina da sua vida, o neto parece que contrariava toda aquela história de autoridade e obediência militar, fazendo uma demonstração do seu físico e de sua espontaneidade e, como se quisesse dizer que a geração do seu avô era rígida e já estava no passado. Tudo isso perante uma câmera que, devido às inovações tecnológicas, proporcionava ao homem comum ser filmado e mostrado, em som e imagem como ele imaginava que era ou como ele queria ser era objeto de curiosidade por parte dessa nova geração. Jovens em busca da felicidade para ter poder, conforme afirma, mais uma vez, o narrador. Jovens que afirmam não saber qual o destino do país, mas falam como devem proceder para vencer na vida e ter poder, no mesmo tom de discurso de um político e gesticulam reproduzindo atitudes dos políticos de palanque.
Apesar de todas as negações que as imagens possam fazer em relação ao texto que o narrador vai apresentando percebe-se a despreocupação das pessoas em falar de si e do momento em que viviam, mesmo estando sob um regime rígido e controlador. O hábito de frequentar lugares de diversão não é abandonado apesar da situação. Parece que as ações militares eram sutis porque, eventualmente, no meio do público aparece a imagem de um militar, discreto, mas presente. Como se estivesse ali apenas para lembrar que havia um controle da situação.
Noutro trecho da narração escutamos que o jovem, que já havia se manifestado contrário aos hábitos dos adultos que tinham poder, vai se tornar, no futuro, também, um homem de classe média e de opinião publica. Um que é entrevistado na fila do alistamento militar, faz pose de homem poderoso ao ter o microfone na mão para dar sua opinião sobre o evento. A afirmação do narrador, nesta hora, é confirmada pela pose e pela fala do entrevistado que diz ser o serviço militar uma grande etapa na vida do homem, pois depois de cumprido o período no exercito ele terá subido mais um andar na sua carreira.
Outra situação que não pode deixar de ser citada é a descrição que uma mulher faz de sua vida de casada. A princípio ela declara que o destino é que decide que a mulher tem que ser de um homem só, mas logo em seguida emenda outra declaração contrária: minha vida é chata demais, lavar, passar, cuidar dos filhos, cozinhar para marido, levantar de madrugada quando ele chega das farras, botar comida pra ele, quer dizer que isso não é vida. Perguntada sobre qual a missão da mulher na sociedade ela responde que não sabe. A mulher, que já estava casada e tinha vários filhos, estava tomando consciência de que um novo tempo estava chegando e já estava em dúvida se o destino da mulher era, mesmo, casar e cuidar da casa. Era o auge da revolução feminina, a liberdade sexual, e ela já não podia usufruir devido às amarras a que se sujeitara. Quando ela casou não tinha opção e agora, com filhos crescendo, o marido indo para as farras e ela cuidando da casa e com vontade de viajar, pode-se ler criar asas, dar um pouco de fantasia para a sua vida.
O filme todo é em tom afirmativo e mostra o momento vivido pelo povo que estava deslumbrado pelas novas tecnologias como, por exemplo, a câmera portátil que gravava som e imagens simultâneos e possibilitava ao povo se como se estivesse na frente do espelho. Com todas as novidades que a sociedade era bombardeada nas propagandas, não sobrava muita disposição para contestar o momento político.
 Esses desencontros entre a fala do narrador, a fala dos entrevistados e as imagens que os mesmos nos brindaram são fruto da incerteza e confusão que se instalou na sociedade após o golpe militar. A confusão e a desinformação foram os elementos que paralisaram a sociedade perante os fatos políticos. As aparições dos entrevistados nos permitem perceber uma realidade subjetiva, que não é verbalizada.
Pelo exposto podemos pensar no filme como um documentário que se tornou um retrato da sociedade de uma época do qual somos fruto. Hoje já se pode classificar este filme, que para Arnaldo Jabor, foi arte, naquela época, como um documento histórico que atesta o que foi vivido por uma sociedade que estava, ainda, sob o impacto de um golpe militar.
 
Segundo Jacques Le Goff (1990):

“um documento é antes de tudo o resultado de uma montagem, consciente ou inconsciente, da historia, da época, da sociedade que o produziram, mas também das épocas sucessivas durante as quais continuou a viver, talvez esquecido, durante as quais continuou a ser manipulado, ainda que pelo silêncio. O documento é uma coisa que fica, que dura, e o testemunho, o ensinamento (para evocar a etimologia) que ele traz devem ser em primeiro lugar analisados desmistificando-lhe o seu significado aparente”.

            O filme pode e deve ser assistido e analisado como um documento que, como já foi citado, nos aponta muitos fatos vividos pela sociedade de sua época. Por detrás da aparente confusão de algumas falas dos entrevistados e por detrás da fala do narrador podemos ainda encontrar outra linguagem que nos conta parte do que não foi verbalizado. Podemos encontrar a linguagem visual, corporal dos entrevistados, que ora confirma a verbal e ora contradiz.
            Julio Lourenço, autor do blog Tempos Modernos, desqualifica a capacidade técnica do filme, mas, até neste quesito, acho que há uma consonância com a situação vivida pelos personagens, que aparecem em grupos, em rituais ou em festas. Há nessas cenas, algo que parece uma confusão ou discórdia, às vezes visual, às vezes sonora, que está de acordo com as várias falas dos personagens que estão com muitas dúvidas.
            Considero o filme mais um, dos vários, documentos históricos que nos levam para uma época de grandes mudanças na sociedade e, como toda obra, depois de entregue ao público, está aberta a grande variedade de interpretações. Não pode ser diferente com A Opinião Publica.
 
Referencias Bibliográficas

·             Le Goff, Jacques, 1924; História e memória / Jacques Le Goff; tradução Bernardo Leitão; Campinas, SP Editora da UNICAMP, 1990.
·             http://www.blogtemposmodernos.com.br/2010/12/revisitando-o-filme-opiniao-publica-de.html ( blog de Julio César Lourenço – Mestre em Ciencias Sociais pela Universidade Estadual de Maringá.